No aguardado dia de hoje ocorreu o embate eleitoral que decidiu os rumos do clube de maior torcida do Brasil. A atual mandatária, Patrícia Amorim (chapa amarelo ouro) confrontou um verdadeiro tsunami azul – cor da chapa denominada “Fla Campeão do Mundo”, que com boa vantagem ganhou o direito de assumir o comando do Mais Querido, elegendo Eduardo Bandeira de Mello presidente do Flamengo. A chapa rosa, de Jorge Rodrigues, ficou na terceira posição.
A vitória azul abre precedentes para a profissionalização da gestão de um clube que há décadas lida com promessas, mas que convive com amadorismos incomensuráveis. Talvez a última leva a beneficiar o Clube de Regatas se deu ao final da década de 70, quando um movimento denominado “Frente Ampla pelo Flamengo” (FAF) – liderado por executivos da Rede Globo, Som Livre, banqueiros e um dono de cartório chamado Márcio Braga – pavimentou os rumos de um Flamengo campeão do mundo pouco depois. A partir de então, anos de um sucessivo “mais do mesmo” se intercalaram a gestões calamitosas, praticamente sepultando a condição de vanguarda da gestão preto-e-vermelha.
Eis que em 2012, ao final da tragicômica administração Patrícia Amorim*, um novo grupo de grandes empresários se une como forma de dar um basta à pasmaceira e o amadorismo vigentes. Capitaneados por Eduardo Bandeira de Mello (profissional do BNDES), a equipe conta ainda com nomes importantes como Wallim Vasconcellos (também ex-BNDES, atualmente no mercado financeiro), Carlos Langoni (ex-presidente do Banco Central), Rodolfo Landim (ex-presidente da BR Distribuidora), Rubén Osta (presidente da Visa), Flávio Godinho (sócio-diretor da EBX), Luiz Eduardo Baptista (presidente da Sky), Rômulo de Mello (presidente da Cielo), David Zylbersztajn (DZ Negócios) entre tantos outros.
* Trágica para os flamenguistas, cômica para os rivais
A verdade é que nunca tantos pesos-pesados do mercado privado estiveram envolvidos diretamente na administração de um clube de futebol – ainda que clubes como Santos, Corinthians, Internacional ou Fluminense já tenham recebido valiosa contribuição do mecenato que integra suas torcidas. Em alguns casos (como do próprio Eduardo Bandeira de Mello) a missão envolve se aposentar das atividades “extra-curriculares” para dedicação quase que exclusiva às atribuições da Gávea. Convenhamos que isto não é exatamente corriqueiro em se tratando de cidadãos cujo conceito de “tempo” é compreendido por meio de cifras.
O choque de credibilidade que a gestão Bandeira de Mello proporciona é algo cujos transbordamentos não se limitam à Avenida Borges de Medeiros, 997. Muitas vezes a rivalidade exacerbada dificulta enxergar que os 20 meses do Flamengo sem patrocínio máster fomentaram malefício tanto para os cofres do clube quanto para os demais. Tradicional carro-chefe das negociações – e portanto, dos valores pagos no mercado do futebol – o clube viu minguarem não apenas suas receitas, mas também a de diversos outros clubes **. A perda do Flamengo como ponto de referência (substituído pelo Corinthians) faz pouco sentido se considerarmos sua condição de maior vendedor de pacotes de pay per view, camisas (em condições normais), audiência televisiva, produtos lotéricos e tantos outros.
** Até aqueles bem administrados e com plena visibilidade encontraram severos percalços em angariarem patrocínios no ano que se encerra
Por fim, a vitória de Bandeira de Mello sinaliza claramente que o Flamengo não é o feudo que Patrícia e seus correligionários tentaram criar ao longo dos últimos 36 meses. Baseada em reformas inócuas e pouco significativas (como a do parquinho ou do estacionamento), Patrícia deixa um clube arrasado em suas finanças, endividado e cujas contas oficiais não se mostram confiáveis. Um clube marcado pela inabilidade na administração de conflitos e pela omissão sempre que conveniente. Pela inoperância de seu marketing e pela péssima imagem no mercado – tendo apenas a sétima colocação no ranking de patrocínios, quinto em receitas. Resta ainda a lembrança de uma gestão marcada pelo fisiologismo e pela aproximação nada saudável a torcedores profissionais e indivíduos predispostos a trocarem cargos por favores. Realizações cantadas em verso e prosa (como o Museu, o Centro de Treinamento ou o Morro da Viúva) encontram obras paradas ou ainda no papel. Em campo, vexames e participações de um típico coadjuvante.
O dia 03 de dezembro de 2012 tem tudo para entrar para a história não apenas do Clube de Regatas do Flamengo como do futebol brasileiro. A data em que começam a ser trilhados caminhos de uma nova era de moralização e seriedade.
Um grande abraço e saudações

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